Por Ana Bia, Líder em Educação na Kiddle Pass*
A estreia de Toy Story em 1995 trouxe à tona o temor dos brinquedos serem esquecidos no fundo do armário. Três décadas depois, a conversa evoluiu: como as crianças interagem, aprendem e brincam em um mundo cada vez mais digital?
Nesse contexto, Toy Story 5 chega às salas de cinema. Ao inserir um tablet inteligente na trama, a nova animação aborda uma questão que tem sido central na vida de educadores e famílias: qual é a função da tecnologia no desenvolvimento das crianças?
Durante muito tempo, o debate se restringiu a uma pergunta simples — quanto tempo as crianças passam diante das telas? No entanto, essa realidade é muito mais intrincada. Cada experiência digital é única. Assim, devemos reformular a indagação: o que as crianças estão vivenciando nesse tempo? O desafio consiste em ir além do simples registro de tempo e analisar a qualidade das experiências.
No longa-metragem, Woody, Buzz e seus amigos habitam um mundo onde a imaginação é o motor que impulsiona tudo. Um brinquedo se transforma em personagem, uma caixa se torna uma nave espacial e um quarto se transforma em um universo repleto de possibilidades. O que realmente confere valor a essas vivências não é o objeto em si, mas como a criança utiliza esse objeto. A mesma reflexão deve ser aplicada à tecnologia: ela estimula a criatividade da criança ou apenas promove o consumo passivo? Ela desperta curiosidade ou se limita ao entretenimento? Ela amplia horizontes ou apresenta tudo já pronto?
Ao mudarmos essa abordagem, notamos que o verdadeiro foco nunca foi simplesmente a presença da tecnologia, mas sim a qualidade das experiências que ela oferece.
Quando utilizada com propósito pedagógico, a tecnologia pode servir como um facilitador para experiências de aprendizado significativas. Ambientes digitais têm o potencial de incentivar criatividade, resolução de problemas, colaboração, expressão e investigação. O diferencial não está na ferramenta em si, mas na maneira como ela é empregada e no papel ativo que a criança desempenha nessa vivência. Quando ela cria, explora e descobre, a tela deixa de ser um fim e se transforma apenas em um meio.
Essa talvez seja a reflexão mais importante que Toy Story 5 nos oferece. O verdadeiro desafio não reside em optar entre o mundo físico ou digital; ele está em assegurar que a imaginação permaneça no centro da infância. O problema nunca foi com a tecnologia — ele surge quando esta substitui aspectos essenciais como criatividade, exploração e as experiências que ajudam as crianças a entender melhor o mundo ao seu redor.
Essa análise também nos convida à responsabilidade enquanto educadores e famílias. Assim como nos preocupamos com alimentação, sono e desenvolvimento motor e linguístico das crianças, agora é hora de aprofundar nosso conhecimento sobre o ambiente digital. Necessitamos aprender a discernir quais conteúdos são adequados para cada faixa etária, qual é a intenção por trás dessas experiências, qual deve ser o papel do adulto nessa mediação e, principalmente: o que as crianças estão realmente vivenciando durante esse tempo conectado?
Acredito que esse representa o grande desafio da nossa geração. Não se trata de afastar as crianças da tecnologia, mas sim de orientá-las na escolha de experiências significativas dentro desse universo. Afinal, talvez a pergunta mais relevante deixada por Toy Story 5 seja: estamos apenas contabilizando o tempo que as crianças passam online ou estamos atentos ao conteúdo rico que elas experimentam enquanto estão conectadas?
*Ana Bia Medeiros é especialista em educação infantil inclusiva e no desenvolvimento de experiências educacionais para crianças. Lidera os projetos pedagógicos da Kiddle Pass e atua na curadoria educacional e nas metodologias de aprendizagem ativa, promovendo experiências que integram tecnologia, criatividade e desenvolvimento infantil. É uma das principais referências da empresa em assuntos relacionados à educação do futuro, infância, inclusão e uso saudável das telas.

