Por Fernanda Sotelo, fundadora e Chief Experience Officer na Kiddle Pass*
Julho é um mês que apresenta um dilema para muitas famílias: como equilibrar o trabalho, o descanso e as férias escolares, evitando que o tempo livre das crianças resulte em horas excessivas em frente às telas?
A situação se complica ainda mais, uma vez que as férias dos filhos nem sempre coincidem com as dos pais. Uma pesquisa realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box revela que 60% dos pais não conseguem tirar férias ao mesmo tempo que seus filhos durante julho, principalmente devido a compromissos profissionais. Com mais tempo em casa e menos opções de viagens durante a semana, a presença das telas na rotina infantil acaba aumentando.
Esse cenário se torna quase um ritual. Com a chegada das férias, surge também um sentimento de culpa. Especialistas aconselham os pais a limitarem o tempo de tela. Enquanto isso, os adultos tentam equilibrar trabalho e presença familiar, enquanto as crianças buscam socialização, exploração e descobertas. Nesse contexto, a tecnologia se torna cada vez mais predominante — talvez estejamos fazendo a pergunta errada. O verdadeiro problema não reside na tecnologia por si só, mas no tipo de tecnologia que oferecemos às crianças.
É neste cenário que se destaca Toy Story 5. Durante trinta anos, Woody e Buzz temeram ser ultrapassados por brinquedos mais avançados. Agora, o novo concorrente não possui rodas ou controles remotos; ele é repleto de notificações, vídeos intermináveis e algoritmos projetados para conquistar nossa atenção. Essa metáfora é extremamente pertinente aos dias atuais.
Atualmente, habitamos uma economia onde a atenção é um ativo valioso. Quanto mais tempo ficamos conectados, mais relevantes nos tornamos para plataformas que competem silenciosamente por cada segundo do nosso olhar — e as crianças estão no centro dessa disputa. Por isso, o debate sobre a infância digital evoluiu além de uma questão familiar: as discussões sobre o ECA Digital demonstram que proteger os jovens online já é uma responsabilidade compartilhada entre empresas, plataformas e a sociedade em geral.
No entanto, existe um risco nesse debate: continuamos focando apenas no tempo que uma criança passa em frente à tela, enquanto a questão crucial deve ser o que realmente acontece nesse período. Trata-se de uma simplificação dizer que toda experiência digital é igual; assim como dizer que todos os livros têm o mesmo valor pedagógico. Uma tela pode tanto inibir a curiosidade infantil quanto estimulá-la. Pode isolar ou aproximar as crianças da família. Pode simplesmente ocupar uma tarde de férias ou despertar um interesse duradouro.
A diferença entre passar uma hora assistindo vídeos e dedicar esse mesmo tempo aprendendo sobre emoções, criando personagens, programando jogos ou explorando novas culturas é imensa. Todas essas atividades acontecem em uma tela — mas geram experiências de infância completamente distintas.
As férias evidenciam essa realidade ainda mais. Viajar é uma das experiências mais enriquecedoras para uma criança; não apenas porque ela descobre novos lugares, mas também porque amplia sua visão de mundo. Essa jornada começa antes mesmo do embarque: quando a criança aprende sobre cumprimentos diferentes no Japão ou experimenta receitas típicas antes da viagem.
Um movimento interessante começa a emergir: em vez de usar a tecnologia para manter as crianças cada vez mais conectadas, podemos usá-la para incentivá-las a viver experiências fora do ambiente digital. Essa abordagem inspira a colaboração entre Kiddle Pass e Decolar, transformando atividades educativas em oportunidades para vivências familiares enriquecedoras. Assim, a tela deixa de ser um ponto final e se torna um ponto de partida.
Essa transformação é possivelmente uma das mais significativas no contexto da infância digital. Não devemos apenas nos preocupar com quanto tempo as crianças passam conectadas — precisamos investigar para onde essa tecnologia está levando-as. Ela desperta curiosidade? Fortalece laços afetivos? Estimula criatividade? Ampliar horizontes? Ou simplesmente ocupa espaço no calendário?
O futuro da infância não será definido pela quantidade de tecnologia presente na vida das crianças, mas sim pela intenção com que essa tecnologia é utilizada. Quando ela provoca curiosidade e inspira descobertas, deixa de competir com brinquedos tradicionais e passa a integrar o ato lúdico.
Pois a melhor tecnologia voltada para as crianças não é aquela que mantém elas grudadas na tela; é aquela que faz com que desejem desligá-la para vivenciar tudo aquilo que aprenderam através dela.
*Fernanda Sotelo é especialista em experiência do cliente, estratégia de produto e construção de marca. Lidera as frentes de produto, experiência e posicionamento da Kiddle Pass, family tech que reúne experiências digitais educativas para crianças e atua no desenvolvimento de soluções integradas entre tecnologia, educação e entretenimento para as famílias. É uma das principais vozes da empresa em temas relacionados à inovação em produtos digitais, experiência do usuário, parentalidade e transformação digital.

