Por Claudia Schulz, CEO da ABStartups*
No universo das startups, uma ideia comum é que o crescimento acelerado exige a captação de investimento. As rodadas de financiamento são frequentemente vistas como um indicativo de sucesso. Quanto maior o valor do aporte, maior a validação do empreendimento. Contudo, os dados das edtechs brasileiras nos levam a repensar essa premissa: 66,3% dessas empresas nunca receberam nenhum tipo de investimento.
Inicialmente, essa estatística pode sugerir uma carência no ecossistema, evidenciando a dificuldade de acesso ao capital. Entretanto, talvez ela revele uma narrativa alternativa: a de organizações que aprenderam a desenvolver seus negócios antes mesmo de se preocupar em captar recursos.
Se olharmos para esse dado isoladamente, poderíamos concluir que o ecossistema carece de acesso ao capital. No entanto, ao correlacionar essa informação com outros indicadores, uma nova perspectiva emerge: se dois terços dessas empresas nunca obtiveram investimento, como continuam operando?
Um dado interessante é que cerca de 44,6% delas estão no mercado há mais de cinco anos. Enquanto apenas 7,7% estão na fase de ideação, 29,5% já estão em operação e 15,7% alcançaram a fase de escala. Isso significa que muitas dessas empresas já superaram as etapas iniciais e estão enfrentando realidades desafiadoras.
A escassez de capital pode ter gerado uma consequência pouco debatida: as startups precisam aprender rapidamente a transformar suas inovações em modelos de negócios sustentáveis. Essa realidade se reflete na própria estrutura organizacional das empresas. Mais da metade das edtechs (51,4%) conta com equipes compostas por até cinco colaboradores; enquanto 22,8% têm entre seis e dez funcionários.
Além disso, 42% dos formatos comerciais adotados são baseados em SaaS e 38,1% das empresas têm o B2B como seu principal perfil de cliente, com outras 32,7% atuando no modelo B2B2C. Essas características indicam um ecossistema acostumado a operar com recursos limitados: estruturas ágeis e modelos recorrentes em busca de clientes que possam gerar receita.
Outro dado revelador é que 59,7% das edtechs já realizaram mudanças em seus modelos de negócios (pivotaram). Vale ressaltar que pivotar não é sinônimo de insucesso; muitas vezes representa o reconhecimento de que uma estratégia não está funcionando e a disposição para ouvir o mercado e fazer as alterações necessárias antes que seja tarde demais. Em um cenário onde os recursos são escassos, essa habilidade adaptativa se torna essencial para a sobrevivência.
Até esse ponto, poderíamos pensar que tudo está sob controle. No entanto, não está. Existe uma diferença crucial entre sobreviver sem capital e conseguir expandir sem ele. E talvez esse seja exatamente o novo desafio enfrentado pelas edtechs brasileiras.
O mais recente levantamento da ABStartups revela que apenas 15,7% das empresas estão na fase de escala. Quando observamos o contexto internacional, essa disparidade se torna ainda mais notável: somente 11% já deram passos para internacionalizar suas operações, apesar de 61,3% estarem considerando essa possibilidade. Dentre aquelas que conseguiram captar investimento, apenas 3,3% receberam recursos do exterior. Essa situação gera uma aparente contradição: empresas que conseguiram sobreviver e encontrar clientes ajustaram seus modelos e demonstraram capacidade operacional mas ainda enfrentam dificuldades para converter essa maturidade em crescimento significativo.
Aqui surge uma nova questão: em vez de perguntar por que tantas edtechs brasileiras não atraíram investimento, deveríamos nos indagar quantas destas empresas já demonstraram sua capacidade de sobreviver mas estão perdendo oportunidades de crescimento pela falta dos recursos necessários para avançar.
Investimento não deve ser encarado como um sinônimo direto de triunfo. Uma startup que capta milhões sem criar um negócio sustentável pode não ser mais madura do que outra que cresceu organicamente através da receita própria. Contudo, também não devemos idealizar o bootstrapping.
O capital pode proporcionar diversas possibilidades: contratar profissionais qualificados, investir em tecnologia inovadora, desenvolver novos produtos e acelerar a aquisição de clientes ou até mesmo explorar novos mercados competindo internacionalmente. Em determinados momentos do desenvolvimento empresarial, eficiência e capital podem ser vistos como aliados complementares.
As edtechs brasileiras já provaram sua capacidade de realizar muito com poucos recursos. Elas construíram negócios enxutos e aprenderam a se adaptar diante das adversidades ao longo dos anos sem depender exclusivamente de grandes aportes financeiros. A próxima etapa agora é diferente: não precisamos mais questionar se essas empresas conseguem sobreviver sem investimento; as evidências mostram que muitas conseguem fazê-lo. O desafio atual consiste em criar condições favoráveis para permitir que aquelas que já demonstraram eficácia possam transformar tal eficiência em crescimento robusto e impacto significativo no mercado global.
Sobreviver com recursos limitados é um sinal claro de resiliência; no entanto, traduzir essa resiliência em escalabilidade será o verdadeiro teste da maturidade na próxima fase das edtechs brasileiras.
*Claudia Schulz é CEO da Associação Brasileira de Startups (ABStartups) e figura proeminente na promoção do empreendedorismo e inovação no Brasil. Sob sua liderança na associação, tem promovido iniciativas voltadas ao fortalecimento do ecossistema startup brasileiro com foco no desenvolvimento comunitário regional e na conexão entre empreendedores e investidores estratégicos. Além disso, coordena programas voltados para mentoria e relacionamento com associados e atua como porta-voz do evento StartupON que impulsiona inovação por diversas regiões do país.

