Esta reportagem integra a série “Invenções brasileiras que impactaram o mundo”, exclusiva para membros do Clube Olhar Digital.
Imagine-se no final do século XIX, uma época sem celulares, rádio ou televisão. A única forma de enviar mensagens rapidamente era através de cabos telegráficos. Foi então que um gaúcho ousado decidiu testar uma ideia revolucionária: transmitir a voz humana pelo ar, sem fios. Esse visionário era o padre e cientista Roberto Landell de Moura, responsável pela primeira transmissão pública de voz sem fio via ondas de rádio registrada na história, realizada em São Paulo (SP).
Apesar de ter desenvolvido uma tecnologia inovadora e à frente do seu tempo, Landell não obteve reconhecimento ou riqueza. Ao invés disso, enfrentou a falta de apoio financeiro do governo e do setor privado para fabricar seus dispositivos, além da hostilidade de pessoas que consideravam suas criações como “coisas do diabo”, chegando até a destruir seus equipamentos.
Nesta reportagem, o Olhar Digital explora como funcionava a invenção do padre e os motivos pelos quais o reconhecimento global foi direcionado a inventores estrangeiros.
A fascinante experiência de transmitir som pelo ar sem fios
Para compreender a magnitude da conquista de Landell de Moura, é fundamental entender as tecnologias disponíveis na época.
No final do século XIX, inventores ao redor do mundo buscavam formas de comunicação sem fios. “Foi um período em que as ondas de rádio foram confirmadas experimentalmente pelo alemão Heinrich Hertz”, explica Eduardo Pouzada, professor de telecomunicações no Instituto Mauá de Tecnologia. “A partir daí surgiram tentativas práticas: qual o uso dessas ondas que se propagam quase à velocidade da luz?”, complementa.
Um exemplo é Guglielmo Marconi, que em 2 de junho de 1896 enviou sinais em código Morse pelo ar. Contudo, transmitir uma voz humana com clareza era um desafio muito mais complicado.
No dia 16 de julho de 1899, Landell convidou jornalistas, empresários e autoridades para acompanhar uma demonstração no Colégio Santana, na zona norte da capital paulista. Com um equipamento por ele desenvolvido, conseguiu transmitir sua voz até a Ponte Grande, a quase quatro quilômetros de distância. As pessoas presentes puderam ouvir claramente sua fala e até mesmo o Hino Nacional.
Em 1900, o padre realizou um novo teste, desta vez alcançando uma distância ainda maior: cerca de oito quilômetros até a Avenida Paulista.
<p“Ele teve que construir tudo sozinho aqui no Brasil”, destaca Pouzada. “Não havia lojas onde pudesse encontrar os materiais necessários; ele precisou criar cada componente.”
Landell também fez questão de documentar suas invenções para garantir seus direitos sobre elas. Ele obteve uma patente brasileira em 1901 e viajou para os Estados Unidos. Em 1904, conquistou três patentes americanas para dispositivos que transmitiam ondas radiofônicas, som por feixes luminosos e telégrafo sem fio.
Seus cadernos continham esboços que antecipavam inovações como a televisão e o controle remoto.
Por que Landell não ganhou fama mundial?
Ainda que as invenções do padre fossem eficazes, por que Marconi é mais lembrado do que Landell? A resposta reside na falta de recursos financeiros e nos preconceitos da época.
Diferentemente de Landell, Marconi era oriundo de uma família rica e recebeu suporte governamental britânico para transformar sua ideia em um grande negócio. Já Landell era um sacerdote sem dinheiro trabalhando isoladamente.
A administração brasileira negou solicitações para financiar a produção dos aparelhos locais. Para agravar a situação, muitos supersticiosos não compreendiam como poderia haver transmissão da voz pelo ar sem cabos e viam isso como magia negra. Fanáticos religiosos chegaram a invadir seu laboratório e destruir suas máquinas.
Landell faleceu em Porto Alegre (RS) em 1928 sem ver suas invenções sendo amplamente produzidas.
A atualmente historiadores e cientistas reconhecem que o desenvolvimento do rádio foi um esforço coletivo envolvendo vários pesquisadores ao longo dos anos. No entanto, é importante ressaltar o papel pioneiro do padre brasileiro nessa história.
“As transmissões radiofônicas são analógicas e continuarão assim no ano 2100, 2200 ou mesmo no ano 3000, se a humanidade existir”, ressalta o professor Pouzada. Na virada daquele século XIX para o XX, um religioso brasileiro demonstrou que fé e ciência podem andar juntas em busca do progresso humano.
(Esta reportagem também incorporou informações da CNN Brasil, G1, Revista Khronos da USP e Vatican News.)
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