Especialistas ressaltam que a qualidade das experiências digitais deve ser priorizada em relação ao tempo de tela no desenvolvimento infantil
Com a estreia de Toy Story 5 nos cinemas, uma discussão importante volta à tona entre educadores, especialistas e famílias: qual é o verdadeiro impacto da tecnologia na infância? Três décadas após apresentar a amizade entre Woody e Buzz, a famosa franquia da Pixar retorna para abordar as transformações na vida das crianças, agora em um cenário onde os dispositivos digitais estão sempre presentes.
Na nova trama, Lilypad, um tablet inteligente, emerge como uma influência significativa sobre Bonnie, simbolizando os dilemas enfrentados por muitas famílias atualmente. A narrativa não se limita a contrastar brinquedos com tecnologia; ela convida o público a refletir sobre como as crianças interagem, brincam e aprendem em um mundo cada vez mais digitalizado.
Essa escolha narrativa não é acidental. Desde o lançamento do primeiro filme, Toy Story tem explorado a imaginação infantil — a habilidade de transformar objetos comuns em aventuras incríveis. Ao centralizar a tecnologia no enredo, a nova animação provoca uma reflexão mais ampla: como podemos assegurar que a criatividade, curiosidade e descoberta continuem sendo elementos centrais no crescimento das crianças?
Fernanda Sotelo, cofundadora da Kiddle Pass — uma plataforma de tecnologia familiar focada em experiências digitais educativas — afirma que o questionamento levantado pela animação se estende além da simples presença da tecnologia. O foco principal está em como as crianças estão aprendendo e se desenvolvendo em um ambiente cada vez mais tecnológico. “O problema nunca foram as telas, mas sim o que elas apresentam. Conteúdos seguros, educativos e interativos fazem da tecnologia uma aliada valiosa para o desenvolvimento infantil”, diz Fernanda.
Ela acrescenta que o debate deve ir além do tempo gasto diante das telas e se concentrar na qualidade das experiências oferecidas nesse espaço. Para Fernanda, é crucial questionar não apenas quanto tempo uma criança passa conectada, mas também quais vivências ela está tendo enquanto isso acontece.
“Precisamos ir além do relógio e avaliar a qualidade das interações. A tecnologia pode fomentar habilidades como criatividade, raciocínio lógico, colaboração e expressão quando utilizada de forma intencional e com propósito. Assim, as telas deixam de ser apenas um destino e passam a ser ferramentas para o aprendizado”, esclarece.
Esse debate torna-se ainda mais pertinente no contexto brasileiro. De acordo com dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil, crianças e adolescentes estão conectados por mais de quatro horas diariamente. Ao mesmo tempo, questões relacionadas à segurança digital infantil e ao uso consciente da tecnologia estão ganhando destaque nas prioridades de famílias, escolas e formuladores de políticas públicas.
Fernanda acredita que esse cenário demanda um novo entendimento por parte de pais e educadores. “Assim como informamos sobre alimentação saudável, sono adequado e desenvolvimento motor ou de linguagem, também precisamos aprender a fazer escolhas conscientes no ambiente digital. Não basta questionar se as telas são boas ou ruins; é fundamental entender qual conteúdo é apropriado para cada faixa etária, qual é a intenção daquela experiência e qual papel cabe ao adulto nesse processo”, enfatiza.
“A Pixar narra uma história que ressoa com os desafios cotidianos enfrentados pelos pais. O debate proposto pelo filme não gira em torno da eliminação das telas na vida das crianças; trata-se do que estamos oferecendo através delas. A tecnologia pode ser uma ferramenta excepcional para aprendizado se houver intencionalidade, segurança e propósito”, conclui.
Se Toy Story sempre abordou temas como imaginação, amizade e descoberta, talvez o novo desafio proposto pelo filme seja outro: estamos ensinando às crianças apenas a consumir tecnologia ou também a criar, explorar e aprender com ela?

