A presença da Inteligência Artificial (IA) na vida profissional de muitos colaboradores é cada vez mais evidente, sendo utilizada para atividades como redação de textos, análise de documentos, organização de dados e criação de conteúdos. No entanto, o problema surge quando essas tecnologias são adotadas antes que regras claras para seu uso sejam estabelecidas. A falta de diretrizes e medidas de segurança pode resultar em consequências negativas e até em responsabilidades legais para os empregadores.
Muitos trabalhadores têm adotado, por conta própria, ferramentas como ChatGPT e Gemini em suas rotinas diárias. Na maioria das vezes, essa iniciativa é benéfica, pois essas soluções tecnológicas permitem economizar tempo, organizar tarefas com mais eficácia e aprimorar a apresentação de documentos. Contudo, a dificuldade aparece quando essa utilização ocorre sem o conhecimento ou a supervisão da empresa e sem critérios adequados de segurança.
Esse fenômeno é frequentemente denominado uso não autorizado ou informal de ferramentas de IA. Isso resulta em uma forma de inteligência invisível nas organizações, onde um colaborador recorre a plataformas externas para realizar suas atividades profissionais sem que a empresa tenha ciência da ferramenta utilizada, do tipo de informação inserida ou das condições em que os dados foram tratados. Além disso, é difícil saber como os resultados gerados serão utilizados.
Os riscos aumentam significativamente quando informações sensíveis são alimentadas nesses sistemas. Documentos enviados para análise podem incluir dados pessoais de clientes, informações financeiras, contratos, estratégias comerciais e dados sobre funcionários, além de projetos ainda não divulgados ou informações protegidas por acordos de confidencialidade. Dependendo da ferramenta utilizada e das configurações escolhidas, esses dados podem ser armazenados e processados de maneiras diversas, exigindo atenção rigorosa por parte das empresas.
O advogado especializado em direito trabalhista Lucas Aguiar enfatiza que essa preocupação está diretamente relacionada à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
“O simples fato de uma informação estar acessível em uma ferramenta tecnológica não permite sua transferência livre para qualquer sistema. Organizações que trabalham com dados pessoais precisam considerar aspectos como finalidade, necessidade, segurança e governança no tratamento dessas informações”, alerta Aguiar.
Outro ponto levantado por Aguiar é o risco inerente à possibilidade da IA gerar respostas incorretas ou “alucinações” características dos sistemas generativos.
“Em algumas situações, as ferramentas podem apresentar informações falsas ou incompletas como se fossem verdadeiras. Um texto pode conter estatísticas inexistentes ou referências que nunca foram publicadas, bem como interpretações jurídicas errôneas ou dados convincentes mas incorretos. Esse é um risco significativo quando essas informações erradas são repassadas a clientes ou utilizadas em contratos, relatórios e decisões empresariais”, adverte.
Ele ressalta ainda que mesmo com a ajuda da tecnologia na produção de conteúdo, a revisão humana continua sendo essencial.
“A responsabilidade pelo conteúdo utilizado no ambiente profissional não se extingue apenas porque uma máquina participou do processo criativo. A questão envolve também quem autorizou o uso das ferramentas, quais foram elas e que informações foram fornecidas ao sistema. Além disso, é fundamental considerar quais mecanismos de proteção estão em vigor e quem revisou o resultado antes da utilização. Do ponto de vista jurídico, o empregador pode ser responsabilizado por ações tomadas pelos seus empregados durante o trabalho se o uso da IA causar danos a clientes ou terceiros”, alerta ele.
Para evitar problemas relacionados ao uso indevido da IA nas empresas, o advogado sugere investimentos em capacitação.
“É insuficiente simplesmente entregar um manual aos colaboradores e esperar que eles compreendam as diferenças entre usos seguros e situações arriscadas. As equipes necessitam entender na prática as razões pelas quais certos dados não devem ser inseridos nas ferramentas e como verificar as informações produzidas pela inteligência artificial. Também devem saber quais circunstâncias demandam autorização ou revisão prévia. O grande desafio das empresas é aproveitar os benefícios da inteligência artificial enquanto minimizam os riscos jurídicos e operacionais”, conclui Aguiar.

