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Quem realmente detém os recursos da CBF? O caso Samir revela as incoerências do futebol e da sociedade brasileira.

Sorocaba AtualSorocaba Atualjunho 18, 2026 1185 Minutes read0

Quando um escândalo relacionado à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vem à tona, uma justificativa costuma ser prontamente apresentada para apaziguar a situação: a CBF é uma entidade privada. Embora essa afirmação seja clara, ao aprofundar o debate, percebe-se que ela não responde à questão central. O recente caso do presidente Samir Xaud, que foi acusado de utilizar a estrutura da confederação para viagens com acompanhantes próximas a ele, reacendeu uma discussão que transcende as despesas do dirigente. Afinal, se os recursos da instituição não são públicos, a quem pertencem? A resposta a essa indagação revela uma das características mais intrigantes do esporte em âmbito global.

Uma entidade sem proprietários

Ao contrário de empresas convencionais, a CBF não possui acionistas ou sócios que possam ser considerados donos. Nem mesmo está sob a posse direta do Estado brasileiro. A confederação é classificada como uma associação civil de direito privado sem fins lucrativos. Assim, seu patrimônio não é propriedade do atual presidente ou das federações estaduais individualmente, mas sim da própria organização jurídica denominada Confederação Brasileira de Futebol.

Veja as fotos

Divulgação/CBF
Reprodução/X: @brasil
CBF anuncia novo calendário na sede da entidadeFOTO: @rafaelribeirorio / CBF

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A questão que gera contradições em relação à CBF é clara. A confederação gerencia uma marca extremamente valiosa no Brasil, movimentando cifras gigantescas e controlando a seleção nacional mais vitoriosa do mundo. No entanto, não há um proprietário específico que possa ser identificado como dono. Enquanto os dirigentes vão e vêm, a instituição permanece inalterada.

Um monopólio fora dos padrões de mercado

Num sistema capitalista típico, empresas competem por consumidores e aquelas que falham desaparecem. Contudo, a realidade da CBF é distinta. Sua influência não decorre de concorrência comercial, mas sim do reconhecimento institucional concedido pela FIFA.

A FIFA reconhece apenas uma única entidade nacional por país para atuar como representante oficial do futebol no cenário global. Para o Brasil, essa responsabilidade recai sobre a CBF.

Embora ela não possua o futebol brasileiro em si, detém exclusividade na sua representação. Isso lhe permite organizar eventos com a Seleção Brasileira e participar das reuniões da FIFA. Além disso, tem autoridade para inscrever equipes em competições oficiais e negociar comercialmente os direitos associados à icônica camisa canarinho. O monopólio reside na legitimidade para gerir esses aspectos.

A sobrevivência do futebol sem a CBF

Para compreender esse fenômeno é útil considerar a trajetória histórica da entidade. A criação da CBF não foi um ato impulsionado pela FIFA; ela é descendente da antiga Confederação Brasileira de Desportos estabelecida em 1914, numa época em que o futebol ainda não era reconhecido como um gigante econômico.

Em 1979 surgiu a CBF com o propósito exclusivo de gerenciar o futebol nacional. Entretanto, o futebol brasileiro já existia antes dessa fundação: ícones como Pelé e Garrincha já faziam parte desse cenário antes mesmo da criação da entidade. Outros grandes nomes como Zico, Romário, Ronaldo e Marta também precederam sua existência.

A paixão pelo futebol no Brasil foi moldada por gerações de atletas e torcedores ao longo dos anos. A confederação pode administrar esse legado cultural imenso, mas não foi responsável por sua formação.

A receita que não pode ser chamada de lucro

Outro ponto contraditório refere-se ao fato de ser uma entidade sem fins lucrativos. Apesar dessa classificação legal, a CBF acumula anualmente receitas elevadas provenientes de patrocínios, direitos televisivos e contratos comerciais internacionais, tornando-a uma das organizações esportivas mais ricas na América Latina.

Tal situação não implica irregularidade alguma. Uma associação sem fins lucrativos pode gerar superávits e aumentar seu patrimônio financeiro desde que esses recursos sejam reinvestidos nas atividades centrais que sustentam sua razão de existir. Contudo, é exatamente neste ponto que o debate gerado pelo caso envolvendo Samir Xaud se torna relevante — passando de um aspecto jurídico para um questionamento institucional.

Quem se beneficia realmente?

Quando um empresário utiliza fundos corporativos, há sempre um proprietário claro por trás desse capital. No entanto, na CBF essa lógica diverge: o dirigente exerce controle administrativo sem possuir realmente os recursos.

Portanto, a questão crucial transcende se o dinheiro é público ou privado; ela reside na finalidade desse capital acumulado.

Se a missão da entidade é desenvolver e representar o futebol brasileiro adequadamente, qualquer uso dos recursos financeiros deve estar alinhado com essa responsabilidade institucional. Assim sendo, o debate vai além das implicações legais e toca questões relacionadas à governança ética e responsabilidade administrativa.

A base dessa estrutura financeira

Uma última reflexão elucida por que as crises envolvendo a CBF costumam gerar reações tão intensas entre os torcedores e apaixonados pelo futebol: embora controle uma vasta riqueza financeira gerada nos gramados brasileiros — nas arquibancadas repletas de fãs — esta riqueza provém na verdade das emoções vividas pelos milhões de torcedores que tornam o futebol um fenômeno cultural inigualável no Brasil.

Em termos mercadológicos, a Seleção Brasileira representa uma força global significativa; socialmente simboliza valores nacionais profundos; economicamente movimenta recursos que podem impactar várias gerações futuras — tudo isso fruto do esforço coletivo investido por todos os envolvidos no universo do futebol brasileiro.

Por isso mesmo, alegar que a CBF é meramente uma entidade privada não basta para encerrar as discussões pertinentes sobre sua atuação. Embora careça de proprietários específicos, ela gere um patrimônio construído coletivamente por todos aqueles que contribuíram para tornar o futebol brasileiro um dos ativos mais valiosos no cenário esportivo nacional.

Essa contradição intrínseca provoca novas reflexões diante de cada escândalo emergente: se ninguém possui propriedade sobre a CBF oficialmente designada como gestora desta riqueza vastíssima — quem deveria realmente usufruir dela?

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CBFesportesfutebol brasileiroSamir Xaud
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