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Inteligência Artificial pode assumir o papel de educadores? Especialista alerta para a perda do raciocínio crítico.

Sorocaba AtualSorocaba Atualjunho 17, 2026 109 Minutes read0

A presença da inteligência artificial nas escolas já é uma realidade consolidada. Ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude tornaram-se aliadas dos alunos em diversas atividades, desde a simplificação de textos e explicações de conceitos até a elaboração de trabalhos acadêmicos completos.

Em algumas situações, a adoção dessa tecnologia vai além do esperado. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma instituição educacional chamou a atenção ao substituir docentes por sistemas digitais. A Alpha School se propõe a oferecer um currículo adaptado às habilidades individuais de cada aluno, diminuindo o tempo dedicado a disciplinas básicas, como matemática e inglês, e focando mais em atividades voltadas à “socialização”, tudo com apoio da IA.

Enquanto projetos desse tipo geram interesse, especialistas ressaltam os limites que a tecnologia pode impor ao aprendizado.

A Unesco enfatiza que a inteligência artificial deve atuar como uma ferramenta de apoio para educadores e estudantes, sem substituir o aspecto humano da educação. Segundo Shafika Isaacs, líder da seção de Tecnologia e Inteligência Artificial na Educação da organização, a educação é essencialmente uma vivência social, humana e cultural.

Isaacs também apontou possíveis perigos da IA no aprendizado, como a tendência à externalização do pensamento, que pode prejudicar o desenvolvimento do pensamento crítico entre os alunos.

No Brasil, o professor e pesquisador André Barcaui, especialista em Inteligência Artificial pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), realizou uma pesquisa para avaliar o impacto da IA na retenção de conhecimento em estudantes universitários durante o processo educativo.

Desempenho de alunos que utilizaram ChatGPT foi inferior

O estudo acompanhou universitários que utilizaram o ChatGPT em uma atividade acadêmica e comparou seus desempenhos com os de colegas que optaram pelos métodos tradicionais de estudo.

Quarenta e cinco dias após as atividades, o professor aplicou um teste surpresa aos participantes. Os resultados mostraram uma diferença significativa: os alunos que não usaram inteligência artificial alcançaram uma média de 68,5% de acertos, enquanto aqueles que utilizaram o ChatGPT obtiveram apenas 57,5%.

Barcaui afirma que essas descobertas não significam necessariamente que a inteligência artificial prejudique o aprendizado ou justifiquem sua proibição. Como entusiasta da IA, ele argumenta que o desafio ocorre quando essa ferramenta passa a substituir em vez de expandir o raciocínio humano.

Ele descreve essa situação como “competência emprestada” – quando os alunos conseguem respostas complexas sem desenvolver o conhecimento necessário para reproduzir esse raciocínio autonomamente.

O pesquisador acredita que a inteligência artificial deve ser integrada ao ambiente educacional juntamente com letramento digital e orientação pedagógica. É crucial estimular habilidades essencialmente humanas como leitura, escrita e pensamento crítico.

“O problema não reside na IA em si. O desafio surge quando ela assume o lugar do seu próprio pensamento”, conclui Barcaui. O Olhar Digital trouxe mais informações sobre este tema aqui.

Barcaui também nos concedeu uma entrevista sobre suas reflexões. Confira na íntegra abaixo.

IA pode substituir professores?

Qual foi sua motivação para realizar este estudo?

A ideia surgiu porque sou professor tanto no ensino superior quanto na pós-graduação. Assim, tenho acesso a diferentes realidades educacionais e também atuo como consultor.

Com o tempo, percebi que muitos alunos jovens estavam utilizando a inteligência artificial de maneira superficial ou desinformada. Muitos deles tratavam essa ferramenta apenas como um mecanismo similar ao Google. Por outro lado, havia trabalhos onde era evidente que as respostas não eram originais dos estudantes. Com isso em mente, decidi realizar minha própria pesquisa após analisar dados do Google e Microsoft.

É importante esclarecer: acredito que a IA é uma tecnologia extraordinária com potencial imenso. Sou um grande fã dessa inovação; no entanto, reconheço seus riscos – algo que minha pesquisa busca explorar mais profundamente.

Certa conclusão sua menciona “competência emprestada”. Como você explicaria isso para alguém fora do meio acadêmico? Como isso se manifesta na prática?

No título do meu artigo utilizei o termo “muleta cognitiva”, referindo-me à ideia de emprestar competência. Na prática, isso significa que os jovens podem se sentir como se tivessem um adulto ao lado deles – semelhante à figura materna quando crianças – sempre buscando respostas de forma rápida ao invés de desenvolver seu próprio pensamento crítico.

Esse fenômeno não é problemático por si só; contudo, torna-se preocupante quando se usa essa fonte como substituto do raciocínio próprio.

Enquanto educador e cidadão preocupado com esta questão, vejo que aqueles que utilizam indiscriminadamente a IA estão trocando seu próprio pensamento por respostas prontas geradas pela máquina. Para realmente beneficiar-se das potencialidades da IA é necessário ter uma base sólida previamente estabelecida para facilitar esse aprendizado; caso contrário, corre-se o risco de hipotecar esse conhecimento valioso.

A pesquisa revelou que os participantes utilizaram IA sem qualquer orientação pedagógica. Você acredita que com alguma orientação das universidades os resultados poderiam ter sido diferentes?

A resposta é sim!

Acredito firmemente que nossa geração deve deixar um legado instrutivo às próximas gerações: ensinar habilidades críticas. É fundamental mostrar aos alunos como usar efetivamente as ferramentas tecnológicas disponíveis para aprimorar seu processo cognitivo.

Não se trata de aversão à tecnologia; pelo contrário! Eu valorizo muito a IA! Contudo é imprescindível oferecer formação adequada para evitar um uso ineficaz dessa ferramenta. O essencial é promover um entendimento sobre as capacidades preditivas e generativas das IAs – assim como seus limites e oportunidades – para utilizá-las da melhor maneira possível…

Cabe ressaltar também que não espero dos alunos cálculos complexos sem auxílio tecnológico; afinal as calculadoras existem para facilitar isso. No entanto, situações cotidianas onde eles precisam fazer contas simples sem ajuda podem evidenciar faltas nas bases educacionais essenciais; por exemplo: muitos jovens têm dificuldades até mesmo com regras simples ou interpretação textual…

Pessoalmente sou péssima em matemática mas sei resolver regras simples…

Esses são aspectos básicos! Meu ponto central é: não precisamos nos apoiar apenas nas informações fornecidas pelo Google ou pela IA. A inteligência artificial reflete nosso nível de conhecimento; se temos pouca compreensão sobre determinado assunto ela nos dará respostas genéricas – resultando numa mera cópia sem aprendizado real envolvido!

No entanto, quando possuímos um entendimento mínimo sobre determinado tema nossa interação com essas ferramentas tende a ser muito mais produtiva; portanto devemos buscar respostas ativas ao invés de passivamente esperar soluções prontas!

A pesquisa incluiu um teste surpresa após 45 dias para reavaliar os alunos. A curto prazo você considerou eficaz o uso da IA?

A intenção era investigar qual grupo retinha melhor conhecimento: aqueles utilizando ou não utilizando IA no processo educativo. Embora essa abordagem não seja inédita busquei implementá-la dentro do contexto brasileiro com nossos estudantes universitários.

Iniciei com 80 participantes; porém 50 completaram todas as etapas – algo comum nessa dinâmica experimental. Não revelei detalhes do projeto aos alunos inicialmente; apenas solicitei consentimento para realizarmos um trabalho sobre inteligência artificial juntos.

Medi seu conhecimento prévio sobre IA antes da atividade inicial – constatando baixa média geral entre eles embora alguns apresentassem níveis diferenciados aqui ou ali… Dividi então os grupos: controle (sem uso) versus experimental (com uso). O grupo experimental teve acesso irrestrito à ferramentas digitais enquanto o outro podia recorrer apenas a fontes tradicionais como livros ou pesquisas online… A grande maioria optou pelo ChatGPT durante suas tarefas!

A avaliação final consistiu num teste baseado exatamente no conteúdo previamente abordado nas apresentações realizadas pelos dois grupos… Os dados foram claros: quem não utilizou IA reteve mais informações comparativamente aos usuários dessa tecnologia!

A curto prazo há benefícios na utilização da inteligência artificial… Mas dependendo da maneira como ela for inserida no cotidiano educativo você poderá acabar substituindo seu próprio raciocínio crítico por soluções prontas oferecidas pela máquina – resultando numa perda significativa das oportunidades educativas!

E este panorama pode ter repercussões profundas na formação das novas gerações… Como você acredita que escolas e universidades devem abordar esta questão?

Primeiramente precisamos despertar consciência nesse cenário! Todas as instituições educacionais – desde escolas básicas até universidades – necessitam reconhecer as transformações sociais contemporâneas! Os estudantes já não têm paciência para longos cursos tradicionais onde simplesmente escutam aulas monótonas ministradas por docentes; mudanças são necessárias tanto na pedagogia quanto nas metodologias aplicadas! Eu preciso evoluir enquanto educador assim como meus colegas devem fazer também!

(…) Se ignorarmos essas mudanças corremos sérios riscos ao formar indivíduos despreparados frente às novas tecnologias disponíveis atualmente! Para promover essa transformação será necessário engajamento voluntário por parte dos gestores responsáveis pela educação pública… Iniciativas como o Plano Brasileiro De Inteligência Artificial são passos promissores nesse sentido!

Muitos ainda afirmam erroneamente evitar solicitações relacionadas às IAs pois acreditam erroneamente serem elas ameaças diretas aos educadores… Pessoalmente considero improvável essa substituição total – professores perderão funções gradualmente mas precisarão compreender seus novos papéis dentro deste novo contexto onde IAs fazem parte do cotidiano escolar! Ignorar esse fenômeno ou tentar proibi-lo seria tão ilógico quanto rejeitar serviços práticos modernos!

A inteligência artificial representa um avanço notável; porém requer educação adequada para minimizar receios associados às suas funcionalidades…( ) Porque os alunos irão continuar fazendo uso dessa ferramenta independentemente das nossas crenças! Portanto cabe aos professores se adaptarem à realidade atual onde muitos já conhecem melhor essas dinâmicas tecnológicas do que eles próprios!…

Para resumir precisamos fomentar ações governamentais conscientes visando promover conscientização entre lideranças institucionais! A digitalização hoje tornou-se imprescindível no Brasil para evitar lacunas educacionais futuras!… Sem atenção cuidadosa nesse aspecto corremos risco iminente aumentando desigualdades sociais existentes devido à falta acesso igualitário às ferramentas modernas disponíveis…( ) A inteligência artificial deveria democratizar oportunidades mas requer esforço conjunto entre sociedade civil/aprendizagem formal para garantir eficácia!…

Considerando tudo isso quais habilidades você considera essenciais num estudante atual?

Primeiramente leitura contínua! Fundamental cultivar habilidades analíticas através dela pois possibilita flexibilidade cognitiva além proporcionar compreensão profunda dos conteúdos lidos!…

Em segundo lugar vem escrita criativa… Ao redigir textos originais desenvolvemos estruturas argumentativas próprias exigindo reflexão cuidadosa sobre nossas ideias antes serem compartilhadas publicamente!…

O terceiro ponto refere-se decisões cotidianas tomadas sem assistência algorítmica – manter essa capacidade ativa fortalece nosso cérebro tal qual músculos físicos sendo necessários exercícios regulares diariamente!…

Por último talvez seja crucial aprender interações interpessoais reais… Temos notado aumento significativo plataformas digitais facilitando relacionamentos virtuais porém dependências excessivas podem desumanizar interações verdadeiras levando perda empatia genuína durante conversas face-a-face!…

O post “IA vai substituir professores? ‘Problema é quando substitui pensamento’, diz pesquisador” apareceu primeiro em Olhar Digital.

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Inteligência Artificial
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