Por Ana Bia Medeiros, Líder em Educação na Kiddle Pass*
Quando se fala sobre a relação entre crianças e tecnologia, frequentemente a discussão gira em torno de um tema comum: “Qual a quantidade de tempo que meu filho deve passar diante das telas?” Entretanto, na minha atuação como educadora, convido você a repensar essa questão. E se a indagação realmente relevante fosse: “Quais experiências as crianças estão tendo e com quem estão compartilhando esse tempo?”
Atualmente, estamos vivenciando a Copa do Mundo, um evento que serve como um excelente contexto para essa reflexão. Essa competição é um dos fenômenos mais significativos de mobilização coletiva em todo o mundo. Enquanto as equipes competem no campo, milhões de torcedores se envolvem emocionalmente em suas casas, criando expectativas e compartilhando emoções. As crianças, sem dúvida, fazem parte desse universo vibrante.
Assistir a uma partida decisiva junto da família contrasta fortemente com o consumo isolado e passivo de vídeos aleatórios nas redes sociais. Nesse cenário, há interação genuína: gritos de gol, abraços na sala e a mistura de frustrações e alegrias. O que predomina é um sentido de pertencimento.
Quando uma criança se engaja ativamente em um jogo mediado pelos pais, seu foco não está apenas na tela; ela está desenvolvendo habilidades cruciais para sua vida. Esse processo inclui entender as normas do jogo e os critérios utilizados pelos árbitros, aumentar sua empatia ao perceber a diversidade cultural representada por diferentes sotaques e bandeiras, além de aprender sobre regulação emocional ao confrontar as nuances entre ganhar e perder, tudo isso enquanto enriquece seu vocabulário e suas interações nas conversas familiares.
É importante ressaltar que nem toda interação com telas traz benefícios automaticamente. O crescimento infantil depende de experiências que tecnologias não conseguem substituir: brincar livremente, explorar o ambiente ao redor, movimentar-se fisicamente e socializar com outras pessoas no mundo real. Portanto, o desafio não é considerar as telas como vilãs ou salvadoras; é necessário entender que diferentes experiências digitais têm impactos variados. É fundamental distinguir entre conteúdos que promovem diálogos enriquecedores e estímulos à curiosidade e aqueles consumidos de maneira passiva apenas para ocupar tempo.
Estudos científicos corroboram essa perspectiva. Uma análise publicada na revista JAMA Pediatrics indica que a qualidade do envolvimento durante o uso de mídias digitais tem mais peso no desenvolvimento infantil do que a mera quantidade de tempo exposto às telas. Quando adultos estão presentes nessa experiência — fazendo perguntas, contextualizando informações e estimulando relacionamentos com situações cotidianas — uma prática conhecida como co-viewing — o ambiente digital ganha complexidade, favorecendo o desenvolvimento cognitivo e a aprendizagem.
Assim sendo, talvez o verdadeiro desafio para as famílias atuais não seja apenas monitorar quantas horas as crianças passam nas telas, mas sim investigar o que ocorre durante esse tempo. Com intenção, diálogo e participação ativa dos adultos, temas envolventes como a Copa do Mundo podem transcender o mero entretenimento para se tornarem oportunidades valiosas de descoberta e aprendizado.
Em suma, mais do que simplesmente regular o tempo gasto em frente às telas, educar para um uso consciente da tecnologia é essencial para preparar as crianças para um futuro cada vez mais digital.
*Ana Bia Medeiros é especialista em educação infantil e inclusiva e desenvolvimento de experiências educacionais para crianças. Lidera a frente pedagógica da Kiddle Pass, atuando na construção da curadoria educacional, metodologias de aprendizagem ativa e experiências que unem tecnologia, criatividade e desenvolvimento infantil. É uma das principais vozes da empresa em temas relacionados à educação do futuro, infância, inclusão, aprendizagem e uso saudável das telas.

