Por Marcelo Kotaki, CIO do Grupo Multilixo*
A transformação digital é frequentemente ligada à adoção de novas tecnologias, automações e plataformas inovadoras. No entanto, em operações mais complexas, seu início se dá em um aspecto menos evidente: a habilidade da empresa em organizar processos, informações e responsabilidades para facilitar decisões confiáveis de maneira contínua.
Nos campos de logística, infraestrutura e gestão de resíduos, o ato de digitalizar vai além da simples implementação de ferramentas. É necessário estruturar a operação para que os dados sejam pertinentes ao longo de toda a cadeia produtiva. Quando essa estruturação falha, a organização pode parecer moderna à primeira vista, mas opera às escuras, cercada por uma quantidade imensa de informações sem a clareza necessária para agir.
Um dos maiores equívocos está em tentar solucionar problemas estruturais com tecnologia. Muitas empresas funcionam com áreas isoladas, indicadores contraditórios e fluxos que se tornam inconsistentes ao longo das etapas. O resultado é uma operação cada vez mais difícil de entender, mesmo que continue em funcionamento. Nesse contexto, a gestão acaba reagindo aos problemas em vez de liderar uma estratégia eficaz.
Conforme um levantamento feito pela Beanalytic, 78% das empresas brasileiras não conseguem transformar dados em decisões estratégicas efetivas. Apenas 22% alcançam níveis considerados “Competitivo” ou “Maduro” em relação à maturidade analítica. A verdadeira mudança ocorre quando a empresa revisa o ponto inicial da transformação: antes da implementação de plataformas, é fundamental redesenhar os fluxos operacionais; antes dos dashboards, é preciso estabelecer quais métricas realmente devem ser avaliadas.
Antes da automação, é essencial ter clareza sobre quem toma decisões, em quais momentos e utilizando quais dados. E acima de tudo isso, processos bem organizados e a posição estratégica das pessoas são fundamentais antes da introdução de qualquer tecnologia.
Neste estágio inicial, as informações deixam de ser meros registros operacionais e começam a gerar conhecimento essencial para a transformação. Quando os processos são desenhados para garantir dados consistentes desde o início, a empresa adquire uma habilidade rara: a capacidade de prever desvios, corrigir rotas rapidamente e aprender com suas operações enquanto elas ocorrem.
Soluções como CRM integrado à operação, ERP conectado às atividades em campo e aplicações de inteligência artificial ampliam essa competência. No entanto, nenhuma dessas ferramentas gera eficiência por si só; elas dependem de um design organizacional coeso que permita à operação produzir dados relevantes ao invés de apenas alimentar sistemas administrativos.
Com as demandas ESG tornando essa disciplina ainda mais urgente, as exigências por rastreabilidade e comprovação da destinação adequada exigem operações que garantam consistência e transparência. Sem uma base digital sólida, iniciativas sustentáveis se tornam apenas discurso vazio.
Adicionalmente, há um efeito muitas vezes negligenciado nos projetos de transformação digital: a diminuição da ambiguidade. Processos mais bem estruturados reduzem exceções e tornam divergências mais visíveis, aumentando assim a previsibilidade operacional. Embora isso possa causar desconforto no início, resulta em algo valioso em ambientes complexos: escalabilidade com consistência.
Quando uma organização atinge maturidade digital, a tecnologia não é mais o foco central. Ela continua presente e integrada como uma infraestrutura silenciosa; o foco se desloca para a qualidade das decisões tomadas e para a consistência dos resultados obtidos.
Esse pode ser o verdadeiro indicador de sucesso na transformação digital: não quando a empresa discute incessantemente sobre tecnologia, mas quando consegue explicar suas operações complexas de maneira simples e clara.
*Marcelo Kotaki é CIO do Grupo Multilixo, um ecossistema dedicado à gestão de resíduos e economia circular no estado de São Paulo. Ele lidera as estratégias tecnológicas da companhia com foco na evolução da arquitetura tecnológica e na integração dos sistemas corporativos essenciais, além do fortalecimento da cultura orientada por dados em operações complexas.
Graduado em Ciência da Computação, acumulou experiência como executivo na área tecnológica liderando projetos complexos como a maior integração tecnológica do varejo sul-americano durante a fusão entre BIG e Carrefour. Passou por empresas como Arcos Dorados (McDonald’s), Petz e TOTVS; em 2025 foi homenageado pelo programa TOP 50 Executivos de Destaque na 7th Experience.

