Após mais de 20 anos desde sua descrição inicial, um fóssil que foi considerado o mais antigo polvo conhecido teve sua classificação revista. O Pohlsepia mazonensis, descrito em 2000, era visto como uma descoberta capaz de transformar a compreensão sobre a evolução dos cefalópodes.
Na época, havia a suposição de que os polvos poderiam ter surgido muito antes do que se acreditava, sugerindo uma origem antecipada em mais de 150 milhões de anos em comparação com as estimativas baseadas no Jurássico.
A nova interpretação do Pohlsepia
Um estudo recente, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B Biological Sciences, reavaliou essa classificação. Utilizando técnicas modernas, os cientistas descobriram que o fóssil não pertence à categoria dos polvos.
A análise atual indica que o Pohlsepia é, na verdade, um nautiloide, que embora pertença ao grupo dos cefalópodes, está distante da linha evolutiva dos polvos. Os pesquisadores afirmam que essa nova abordagem questiona a ideia de uma origem paleozoica para as principais linhagens de coleoides.
Debates e evidências controversas
Desde sua descoberta inicial, o fóssil gerou discussões acaloradas. Os pesquisadores envolvidos no seu estudo inicial destacavam características como a fusão da cabeça e do manto, nadadeiras simétricas e múltiplos braços, além da ausência de uma concha rígida.
No entanto, outros especialistas levantaram questões relevantes. O material analisado consistia apenas em um único espécime mal preservado e carecia de estruturas típicas encontradas nos polvos, como ventosas, bico ou saco de tinta identificável.
Com o decorrer do tempo, até mesmo elementos considerados evidentes foram alvo de questionamentos. Estruturas que eram interpretadas como olhos não apresentavam as células esperadas, nem mesmo em condições fossilizadas.
Avanços tecnológicos nas descobertas
A reavaliação do fóssil foi possibilitada por meio de técnicas como imagem por síncrotron e análise multiespectral, que permitiram identificar detalhes que antes estavam ocultos nas rochas.
Os pesquisadores conseguiram localizar uma rádula com pelo menos 11 dentes e fragmentos de um bico. Esses componentes estavam deslocados do corpo principal, provavelmente devido à decomposição antes da fossilização, o que dificultou sua identificação inicial.
A pesquisa conclui que essas características reafirmam a ideia de que o organismo não pertencia ao grupo dos polvos. Enquanto os polvos têm entre sete e nove dentes na rádula, os nautiloides possuem cerca de 13 — sendo razoável considerar a perda de alguns durante o processo de decomposição.
Conexão com outro fóssil reconhecido
A equipe também notou semelhanças entre o Pohlsepia e outro fóssil encontrado na mesma localidade: o Paleocadmus pohli. Este último é identificado como o único registro claro de tecido mole de um nautiloide datado do período Paleozoico.
Diante disso, os autores sugerem que ambos os fósseis possam ser representações do mesmo organismo. Assim sendo, propõem a substituição do nome Pohlsepia mazonensis por Paleocadmus pohli, conforme as normas da nomenclatura científica.
Repercussões na compreensão evolutiva
A reclassificação resolve uma incoerência observada em estudos evolutivos anteriores. Quando o Pohlsepia era incluído nas análises, seus dados destoavam das demais evidências fósseis e moleculares disponíveis.
Com a exclusão deste fóssil das investigações, as pesquisas tendem a reafirmar uma origem dos polvos no Mesozóico, coerente com registros fósseis mais sólidos do final do período Jurássico.
Conforme Thomas Clements, autor principal do estudo, a semelhança com polvos pode ser atribuída ao estado de decomposição do organismo antes da fossilização. Ele enfatizou que estruturas ocultas nas rochas por aproximadamente 300 milhões de anos foram cruciais para esclarecer essa narrativa.

